Hoje eu trago para vocês um resumo da historia da primeira favela brasileira. A origem da palavra favela e como surgiu a primeira favela do Brasil.

E sim saberemos como, quando e onde ocorreu o processo de surgimento das favelas no Brasil.

A palavra Favela vem de uma árvore, uma árvore de três a cinco metros de altura da família das euforbiáceas.

A mesma família da seringueira. É uma árvore que tem favos. Daí, favela.

Umas arvore com favos verruginosos, que têm umas verrugas e essas verrugas são profusamente espinhosas e esse espinho é um espinho cáustico, que quando pega a tua pele tem uma espécie de látex, que dá uma ardência horrorosa, mas pior! Esse espinho entra na tua pele porque são aqueles espinhos andarilhos, caminhantes, ele vai caminhando e tem neguinho que diz que chega até o coração e é assim que a gente chega ao coração da questão, cara.

Como é que surgiram as favelas? Por que hoje favela quer dizer comunidade, quer dizer os barracos nos morros?

É simples, cara,porque tudo começou no Morro da Favela.

O Morro da Favela ficava no interior da Bahia no Arraial de Canudos.

Foi em cima desse morro que o exército brasileiro botou um canhão chamado a matadeira e mirou exatamente na igreja de canudos.

Um ataque final que acabou arrasando aquele arraial evangélico liderado pelo Antônio Conselheiro.

Esse morro estava coberto de uma árvore chamada favela.

Os soldados brasileiros que foram convocados, alguns deles meio que à força, para combater os miseráveis de canudos em 1897, voltaram para o Rio de Janeiro e um dos motivos pelos quais eles tinham se alistado, ou meio que sido levados conduzidos para participar desse massacre, é que eles haviam recebido a promessa de que teriam uma casa própria.

Tão logo retornassem desse confronto.

Eles foram lá mataram 25 mil sertanejos, sujaram as suas mãos com sangue, retornaram para o porto do Rio de Janeiro e foram esperar a sua casa própria e vão para a frente do ministério do exército, no mesmo lugar onde hoje ainda existe uma grande instalação do exército, no fim da Avenida Presidente Vargas, à sombra do morro que então se chamava o Morro da Providência,

Pois nenhuma providência era tomada pelo exército e os caras acabam subindo esse morro.

Algumas fontes dizem até que as grandes caixas de madeira, nas quais os canhões Krupp, comprados da empresa bélica alemã Krupp, estavam ali.

E com aquelas caixas eles subiram e construíramos seus barracos no morro que, até então chamava Morro da Providência.

A questão é que já havia barracos. Isso se deu em 1897, virada para 1898.

A questão é que esse Morro da Providência, que aliás tem milhões de anos. É um morro de granito, que existe, portanto, há provavelmente 800 milhões de anos, portanto ele já estava aqui quando a cidade do Rio de Janeiro foi fundada em 1565 e a cidade nasceu ali na zona portuária, foi se expandindo.

Chamou Cidade Nova, hoje ainda chama Cidade Nova, mas foi batizada de Cidade Nova no tempo do Dom João VI porque ficava ali perto da Quinta da Boa Vista, que era o palácio onde Dom João morou,onde Dom Pedro I, onde Dom Pedro II morou.

E esse morro se chamava Morro do Paulo Caieiro, já se chamava assim em 1600 e tanto, depois passou a chamar Morro da Formiga, depois passou a chamar Morro do Livramento, ele ainda conserva esse nome em alguma parte dele porque na verdade é tipo uma espécie de cordilheira. Tem vários nomes.

Começa lá no Morro da Conceição, vai pelo Morro do Valongo, chega no Morro do Livramento e chega no morro que, então,passou a ser chamado Morro da Providência.

Providência no sentido de o todo poderoso, a providência de Deus, mas ainda tem um jogo verbal porque alguns dizem que passou a se chamar Morro da Providência porque o exército não tomava nenhuma providência para dar as tais casas que tinha prometido para os combatentes de Canudos.

Não é verdade, mas pelo menos o jogo verbal faz sentido.

Outro jogo verbal que também faz sentido é que os combatentes de Canudos,especialmente as chamadas vivandeiras, eram as mulheres que acompanharam essas tropas para Canudos, algumas delas, inclusive, era mulheres dos caras ou amantes ou amancebadas, outras não eram nada.

Eram vendedoras de comida, eram mulheres que forneciam, que esquentavam, que cozinhavam os mantimentos, a comida para o exército,quando o exército estava lá em Canudos.

Essas vivandeiras não apenas vieram junto de volta para o Rio de Janeiro, de onde, provavelmente, tinham saído, como subiram o morro e não apenas subiram o morro, como se diz, que elas tinham conseguido o crucifixo que pertencia à própria igreja de Antônio Conselheiro,lá em Canudos.

E ergueram um oratório, ergueram um campanário lá no topo do Morro da Providência.

Inclusive, foi tombado pelo patrimônio histórico nacional na década de 1970 esse campanário.

Bom, o fato é que já existiam pelo menos cem barracos no Morro da Providência antes de que os combatentes de Canudos ocupassem e o rebatizassem sem como o nome de Morro da Favela.

Esses barracos eram de pessoas que tinham sido expulsas daquela que se chama o primeiro cortiço brasileiro porque não chamava favela, chamava cortiço e até aquele livro maravilhoso, (que você foi obrigado a ler no vestibular) do Aluísio de Azevedo, O Cortiço.

Ele conta a história de um cortiço chamado Cabeça de Porco, que ficava justamente ali nessa região perto do atual Campo de Santana, Campo da Aclamação, a Central do Brasil e esseno lugar que foi o Ministério do Exército, pois esse cortiço dizem que pertencia ao Conde D, o genro do Dom Pedro II, marido da Princesa Isabel.

O fato é que esse cortiço acabou sendo arrasado pelo prefeito Barata Ribeiro, em 1893.

Ele mandou desocupar o cortiço porque o engenheiro Carlos Sampaio ia fazer um túnel ali naquela região e urbanizar, não sei que, não sei que.

Inclusive o Ângelo Augustinho, que foi um jornalista e, acima de tudo, um ilustrador maravilhoso, que tinha um jornal satírico, escreveu “quem diria que uma barata seria capaz de devorar um porco”.

E devorou porque, em janeiro de 1893, eles atacaram , a polícia atacou esse cortiço e devastou o cortiço, expulsando dali 4 mil pessoas.

E por que que chamava cabeça de porco? Que daí virou um nome quase um sinônimo de cortiço, cabeça de porco, mas o original era esse porque os ricos botavam um leão na entrada de sua chácara, daí que vem a expressão Leão de Chácara!

Leão de Chácara vem daí porque os caras faziam pórticos com leão e aí o povaréu botou o que? Botou uma cabeça de porco.

De início era uma cabeça de porco verdadeira, né? Depois fizeram uma escultura de argila lá com uma cabeça de porco, o local chamava Cabeça de Porco.

Foi devastado o lugar foi,derrubado o lugar e aí alguns dos refugiados subiram o Morro da Providência,ou Morro da Formiga, ou Morro do Livramento fazendo ali esses casebres.

E em 1898,esses casebres aumentaram grandemente em número e os combatentes anunciaram”Olha! Parece o Morro da Favela” e virou Morro da Favela, meu chapa.

E a favela só fez crescer, especialmente quando teve o bota-abaixo.

O bota-abaixo para dar origem à Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, também o prefeito Pereira Passos mandou derrubar um monte de cortiço, que ficavam na zona central do rio de janeiro, em torno da Igreja da Candelária especialmente, mais de 500 imóveis foram derrubados.

E essas pessoas, sem ter onde morar e expulsas pelo governo federal, pelo governo estadual, pelo governo municipal do Rio de Janeiro foram se instalar aonde? No Morro da Providência, no Morro da Favela, dando origem à favela.

E hoje o Brasil diz “Nós estamos com problemas com as favelas! Olha quantas favelas! O morro vai descer para o asfalto!”.

A favela original, que começou a virar um problema. Um problema criado, evidentemente, pelo próprio Brasil, pelo próprio governo brasileiro, mas a favela foi crescendo, a favela foi desenvolvendo e a favela acabou virando a arte.

Virando arte! Porque,em 1935, o grande cineasta Humberto Mauro, fez um filme chamado Favela dos Meus Amores.

Depois teve Orfeu do Carnaval, que também era uma peça de teatro escrita pelo Vinícius de Moraes, que depois virou filme do Marcel Cami, depois teve o filme Cinco Vezes Favela, também espetacular.

E na favela, no morro da providência, o samba teve grandes momentos, grandes sambistas, grandes malandros cariocas.

Muito da cultura popular brasileira surgiu no Morro da Favela, no Morro da Providência e o morro continua lá, o Rio de Janeiro continua lindo e continua problemático e o Brasil continua tendo problemas para conviver com as comunidades.

Fonte:

  • Morro da Providência – Memórias da favela – Sonia Zylberberg
  • Favela do Distrito Federal – Jose Alipio Goulart
  • A era das demolições – Oswaldo Porto Rocha
  • Habitações populares – Everardo Backheuser
  • Brasil; Uma história – Eduardo Bueno