De Russomano a Hasselmann: as facetas do bolsonarismo nas eleições municipais de SP
Pluralidade de chapas no espectro político da direita é um empecilho para a transferência de votos dos eleitores de Bolsonaro para Russomanno, diz cientista política - Foto: Marcos Correa/PR

Logo na segunda semana de campanha para as eleições municipais 2020, Jair Bolsonaro (sem partido) rompeu com a promessa de que não se posicionaria sobre nenhum candidato no primeiro turno e afirmou seu apoio a Celso Russomanno (Republicanos) no início da semana passada.

“Eu não pretendia entrar nas decisões de eleições municipais, mas Russomanno é amigo de velha data e estou pronto para ajudá-lo no que for preciso”, disse Bolsonaro, em passagem por São Paulo para participar de um culto da Assembleia de Deus.

O deputado federal liderou a primeira pesquisa Datafolha com 29% das intenções de voto, seguido por Bruno Covas (PSBD) com 20%. Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França empataram em terceiro lugar e apareceram com 9% e 8% respectivamente.

Já a pesquisa mais recente, divulgada em 8 de outubro e após o início das campanhas, apontou 27% das intenções de voto para Russomanno, 21% para Covas, 12% para Guilherme Boulos e 8% para França.

Segundo Russomano, que no primeiro debate eleitoral declarou ser o único capaz de trazer recursos para a capital paulista por manter vínculos com o presidente, o apoio de Bolsonaro é uma resposta contra a frente “anti-Bolsonaro” protagonizada por com Covas e Doria.

O secretário de Comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten, também está colaborando com a equipe de comunicação do candidato.

Coladinho com Bolsonaro

Na avaliação do cientista político Pedro Fassoni Arruda, professor da PUC-SP, entre as candidaturas da direita, a de Russomanno de fato é a com mais chances de chegar ao segundo turno e, para isso, o político deve manter a estratégia de ligar sua imagem ao presidente. 

Enquanto parlamentar, Russomano fez de tudo para destruir direitos. 

“O bolsonarismo [nas eleições em SP] é representado principalmente pela figura de Russomano. Um perfil conservador, muito próximo ao centrão no Congresso Nacional, aos evangélicos inclusive. Posições em relação aos costumes e a questão de gênero expressam esse conservadorismo. Ele também é muito alinhado no terreno da economia, identificado com as forças do mercado”, avalia o pesquisador.

O alinhamento às políticas neoliberais por parte do candidato do Republicanos, conforme frisa Fassoni, não é de hoje. “Ao mesmo tempo que levanta a bandeira da defesa dos interesses do consumidor, enquanto parlamentar, Russomano fez de tudo para destruir direitos apoiando a flexibilização da reforma trabalhista e da Previdência, entre outras medidas. Votou conforme orientação do Planalto”. 

Já a postura de Bolsonaro, para a cientista política Maria Braga, é uma estratégia para “se cacifar para 2022” e ampliar a base de apoio na capital mais rica do Brasil. 

Ela relembra que pesquisa Ibope divulgada no início do mês mostrou que, ao contrário do que aconteceu em outras cidades, em São Paulo o auxílio emergencial não afetou a aprovação de Bolsonaro. As taxas de aprovação e desaprovação à gestão do presidente praticamente não variaram desde março. 

O voto conservador está muito fragmentado. 

Professora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Braga aponta ainda que a pluralidade de chapas no espectro político da direita é um empecilho para a transferência automática de votos dos eleitores de Bolsonaro para Russomanno.

“O voto conservador está muito fragmentado. Não é só a candidatura do Russomano nesse campo, o que também fragmenta o eleitorado. Isso dificulta muito o sucesso eleitoral do Russomano mesmo contando com apoio de Bolsonaro. Pode ser que uma parte do eleitorado vá votar nele, mas não é uma fatia tão expressiva. Levá-lo ao segundo turno é possível mas vencer é mais difícil”, afirma.

Pautas reacionárias

A candidatura de Joice Hasselmann (PSL) também é citada pelas fontes como representante das ideias bolsonaristas mesmo que a deputada federal tenha rompido com o capitão reformado e entrado em atrito por diversas vezes com seus filhos.

Ou seja, apesar das críticas ao presidente e dos confrontos públicos, Hasselmann segue compartilhando dos mesmos ideais conservadores. Ela chegou a ser líder do governo na Câmara dos Deputados.

“Ela acabou se afastando do governo muito mais por uma questão pessoal do que conteúdo. Joice continua defendendo exatamente os mesmos valores”, avalia Fassoni. 

O próprio discurso dela no primeiro debate citando o anticomunismo e se colocando como alguém que defende firmemente as ideias conservadoras contra as esquerdas, que representam um grande mal para o país, foram defendidos. Inclusive, ela evitou criticar o presidente preferindo mostrar que a diferença dela é em relação à maneira da atuação de seus dos filhos”, completa.

De Russomano a Hasselmann: as facetas do bolsonarismo nas eleições municipais de SP
A deputada federal Joice Hasselmann ao lado do senador Flávio Bolsonaro, antes da ruptura com os Bolsonaro / Foto: Reprodução/Instagram

Outra candidatura do campo reacionário é a do deputado estadual Arthur do Val (Patriota), integrante do MBL. Dentre as defesas que devem aparecer com recorrência nos discursos desses candidatos, Braga aposta justamente na continuidade das bandeiras que elegeram Bolsonaro mas que vão além de sua própria figura.

“Os temas mais fortes são o antipetismo, a pauta de segurança pública, uma política mais violenta.. A pauta do armamento vai voltar muito forte. E a questão dos valores tradicionais, conservadores, a tentativa de retirada dos direitos das minorias. É uma agenda muito cara aos setores evangélicos”, avalia.

Estratégia frágil

Apesar de aparecer em primeiro nas pesquisas, o apoio do presidente Bolsonaro ou a proximidade com a imagem dele pode não render tantos votos como Russomanno pensa. Fassoni destaca que o presidente não tem uma popularidade alta em comparação com a avaliação de FHC, Lula e Dilma no segundo ano dos primeiros mandatos.

Um oportunista sem princípio que está buscando chegar ao governo da maior cidade do país 

A forma em que o presidente lidou com crise sanitária e econômica aprofundada pela pandemia do novo coronavírus pode pesar negativamente. 

“É importante lembrar que o Russomano tem uma intenção de voto menor do que nos dois pleitos anteriores (2012 e 2016), quando ele, inclusive, largou na frente e acabou perdendo na reta final. Isso é um fator que tem que ser levado em consideração”, diz o cientista político.

Para ele, a ausência de intermediários organizacionais relevantes pode ser um entrave para o candidato do Republicanos, que tem um apoio muito difuso na sociedade e não possui uma máquina partidária ideal para a disputa de um cargo majoritário.

Fassoni aponta ainda, fragilidades nas próprias declarações de Russomanno, que, evidenciam “um completo desconhecimento sobre os grandes problemas da cidade”.

​​​​​​”Quando ele é questionado a respeito da saúde, ele fala como se fosse um advogado do consumidor. Faz uma promessa vaga, imprecisa e muito genérica. ‘Vou acabar com a fila dos hospitais’. Não fala de onde vai tirar a verba da saúde, não fala o tipo de modelo proposto, se é parceria público-privado, se é incentivo ao SUS”, exemplifica.

O docente comenta que Russomano não se posicionou diante da destruição ambiental no país ou contra a corrupção no caso da rachadinha envolvendo Flávio Bolsonaro. “É esse o perfil do Russomano. Um oportunista sem princípio que está buscando chegar ao governo da maior cidade do país sem um plano de governo bem definido”.

Direita despedaçada

A direita liberal, por sua vez, segue representada por Bruno Covas.

Nenhum candidato se elege só com a elite ou com a classe média alta. 

De acordo com Maria Braga, o atual prefeito deve seguir a estratégia de flertar com a centro esquerda justamente para angariar votos diante da extrema direita. “Ao mesmo tempo que ele tem o voto conservador, da direita, vai andar pela centra esquerda justamente pela fragmentação do campo. É muito interessante o que vai acontecer com Covas”. 

O outro representante da direita liberal é Andrea Matarazzo, candidato do PSD. Embora o político tenha sido apoiado por  tucanos como FHC e Serra, ele rompeu com o PSBD nas últimas eleições quando João Doria foi escolhido como candidato da sigla. 

De Russomano a Hasselmann: as facetas do bolsonarismo nas eleições municipais de SP
São Paulo 07 04 2018 Bruno Covas assume a prefeitura de São Paulo com a renuncia de João Doria que vai disputar o governo do estado.foto Leon Rodrigues

Em relação a outras candidaturas de direita, como a de Filipe Sabará (Novo) que defende privatizações e corte de gastos para a retomada econômica da cidade, Pedro Arruda Fassoni opina que há pouca projeção junto ao eleitorado e dificilmente o desempenho do governador Romeu Zema (Novo) em Minhas Gerais irá se repetir na capital.

Em meio à crise, Maria Braga acredita que, apesar de defenderem projetos neoliberais, candidaturas como a de Russomano podem apresentar propostas localizadas mais ao centro na área da economia.

“A capital é bastante fragmentada. Nenhum candidato se elege só com a elite ou com a classe média alta. Haverá pouca diferença na agenda econômica dos candidatos da direita, eles sabem que precisam dos setores populares mas muito mais como massa de manobra para conseguir voto.”

Por Lu Sudré. Edição: Rodrigo Chagas