Desigualdade no prato: Um retrato das contradições do sistema alimentar brasileiro

Plantio, colheita, transporte, venda e consumo: tudo isso faz parte do que chamamos de sistema alimentar. Ele é difícil de definir e mais difícil ainda de explicar. Esse sistema complexo envolve incontáveis processos, variáveis, setores econômicos. No fim, é ele quem define o que chega — ou não — ao prato dos brasileiros. 

Em um estudo realizado em parceria com o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), o economista, professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e estudioso da distribuição de alimentos no Brasil, Walter Belik, analisa as contradições e as fraquezas do sistema alimentar brasileiro. A análise está disponível também em um documento-síntese com os 10 principais aspectos que, na opinião do economista, devem ser debatidos. O trabalho foi apoiado pelo Instituto Ibirapitanga e pelo Instituto Clima e Sociedade.

Desigualdade no prato

Belik começa pelo começo. No Brasil, um país marcado pela flagrante desigualdade social, ele defende que a comida é um dos principais indicadores do abismo que existe entre ricos e pobres.

Enquanto as famílias mais pobres — com renda de até dois salários mínimos — gastam em média R$ 120 por mês para alimentar cada membro, as mais ricas — com renda superior a 25 salários — gastam R$ 671. Esses valores contabilizam as refeições feitas dentro e fora de casa. Os mais ricos não comem simplesmente em maior quantidade: têm acesso a uma dieta mais diversa e, pelo menos em teoria, mais saudável.

O mais cruel, contudo, não é o valor absoluto investido em comida, mas o impacto causado no orçamento familiar como um todo. Nas casas mais ricas, apenas 5% do orçamento é usado com alimentação. Nas mais pobres, 26%.

É o primeiro contrassenso apontado pelo documento: em valores absolutos, os ricos gastam 5,5 vezes mais; em valores relativos, 5 vezes menos.

Da diversidade à monotonia

O segundo contrassenso não é mais fácil de entender. No país que abriga uma diversidade enorme de biomas, povos e culturas, dez produtos são responsáveis por praticamente metade do que comemos.

Arroz, feijão, pão francês, carne bovina, frango, banana, leite, refrigerantes, cervejas e açúcar: 45% da despensa não foge disso. 

Para Belik, esse é um indicativo de “padronização no hábito de consumo de alimentos dos brasileiros — seja no meio urbano ou rural”. Vale lembrar que a “pasteurização” dos hábitos alimentares é a tendência geral; é evidente que algumas regiões preservam melhor sua diversidade.

O documento é preciso ao lembrar: quando o assunto é alimentação, diversidade é fundamental. Essa também é uma das mensagens centrais do Guia Alimentar para a População Brasileira, conjunto de diretrizes apresentadas pelo Ministério da Saúde para orientar as escolhas alimentares dos brasileiros. Separar um espaço no prato para diferentes cores, sabores e origens não garante apenas uma alimentação mais saudável — garante uma relação mais próxima com os alimentos e com quem os produziu.

Quem come o quê

Pobres e ricos comem as mesmas coisas? Belik aponta convictamente que não. É o caso de farinha de mandioca, açúcar cristal, peixes frescos, óleo de soja, arroz e feijão: quanto maior a renda, menor o consumo. O espaço, na dieta dos mais ricos, é ocupado por cervejas e chopes, azeite de oliva, queijos, frutas, verduras e legumes. Mas o debate central, nesse aspecto, passa necessariamente pelas carnes.

Elas são, de acordo com o documento, responsáveis pela maior parte das despesas com alimentação em todas as famílias brasileiras, independentemente da faixa de renda. Para os mais pobres, um pequeno incremento na renda significa quase necessariamente um aumento no consumo de carnes. Belik oferece uma explicação para esse fenômeno:

O consumo de carne tem um significado cultural relevante para o brasileiro. Está associado à fartura e à sociabilidade.

O churrasco, a mais indestrutível das instituições brasileiras, é a prova da centralidade da carne na cultura alimentar brasileira — principalmente na metade sul do país. O custo, contudo, não é elevado apenas para as famílias. “Esse consumo enorme tem impacto direto na produção de grãos para ração, nos recursos necessários para a criação de gado e nas emissões de gases de efeito estufa que provocam as mudanças climáticas”, enfatiza o documento.

Agro é negócio

Belik oferece três boas críticas à lógica brasileira de produção e distribuição de alimentos. A primeira é sobre a financeirização da produção agrícola. Quando os alimentos são transformados em mercadorias (commodities), os preços são afetados pela flutuação dos mercados internacionais. Sob essa lógica, de um dia para o outro pode ser mais vantajoso para um agricultor brasileiro exportar sua produção do que mantê-la no Brasil. Com a redução da oferta nacional — e uma manutenção da demanda, já que os brasileiros precisam comer — os preços sobem. A elevação recente dos preços do arroz e do óleo de soja são exemplos claros desse movimento.

A segunda é, mais uma vez, sobre a centralidade da carne bovina na dieta brasileira.

Em 2018, para manter as 213,5 milhões de cabeças de gado, os pecuaristas dedicavam uma área 2,5 vezes maior que a de lavouras. 

Os impactos dessa lógica, de acordo com o documento, são graves: “Desmatamento para áreas de pastagem, aumento da produção intensiva de grãos para alimentação animal, poluição de recursos hídricos e emissão de gases do efeito estufa.” 

Por fim, Belik alerta para os problemas da regionalização da produção: as culturas, pelo menos as de larga escala, não convivem no Brasil. Em cada canto do país se produz um punhado de alimentos, o que cria enormes desafios de distribuição e manutenção de diversidade. A demanda por produtividade faz com que os agricultores escolham a monocultura; e a monocultura, como sugere o nome, não tolera competição. 

Superconcentrados

Para entender o sistema alimentar brasileiro, é necessário olhar para os grandes vendedores de comida: os supermercados. Em 2018, os alimentos foram responsáveis por 80% do faturamento das maiores redes. Belik chama atenção, no documento, para a alta concentração desse setor econômico, chamado de varejo alimentar. As três maiores varejistas do país — Carrefour, Pão de Açúcar e Walmart — detêm 41% do mercado.

O gigantismo dessas empresas cria uma concorrência desleal para pequenos comerciantes e produtores de alimentos — incapazes de sobreviver às rígidas estratégias de negociação das redes de supermercado. Com os pequenos alijados, são as corporações que definem o que entra o que o sai do carrinho. Mas a perda, como alerta o documento, pode ser mais subjetiva:

Comprar tudo na gôndola de supermercados, inclusive alimentos in natura, faz com que o vínculo com quem produz o alimento que consumimos seja perdido.

O Brasil e sua insegurança alimentar

Em 2014 o Brasil comemorou a tardia saída do Mapa da Fome da ONU — que reúne países nos quais pelo menos 5% da população convive com a fome. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE feita em 2017 e 2018, contudo, aponta uma piora considerável do quadro de insegurança alimentar dos brasileiros. Mal saímos e provavelmente já voltaremos ao Mapa da Fome.

No encerramento do relatório, Belik lista dez aspectos importantes tomando em conta a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), que separa a insegurança alimentar em três níveis: leve, moderada e grave.

Em 2018, 84,4 milhões de brasileiros se enquadravam em um dos três níveis. 

Pelo menos 10,3 milhões deles sofriam com a insegurança alimentar grave, ou seja, passavam fome.

E a fome não é democrática: 74% das famílias em segurança alimentar grave eram chefiadas por pessoas negras e 52% por mulheres. A discrepância é também regional. Enquanto apenas 2,2% das pessoas da região sofriam com a insegurança grave, 10,2% passavam fome na região Norte. 

Por Victor Matioli